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15/06/2017 | Fonte: Leonardo Valle

Pesquisadora explica legado deixado por Antônio Cândido à educação

Com a concepção de literatura como um direito, pensador enfatizou importância humanizadora dos livros

O sociólogo e literato Antonio Candido deixou diversas contribuição à educação através de sua obra. Segundo a professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro da Academia Paulista de Educação, Marisa Lajolo, a principal delas foi a criação do conceito e a discussão acerca do direito à literatura. Marisa foi orientanda de Cândido durante o seu mestrado e doutorado em Letras. O pesquisador faleceu em 12 de maio de 2017, aos 98 anos. “Para Antônio Cândido, a literatura – ao lado de outras manifestações culturais – satisfaz a necessidade do ser humano de sentir que é capaz de (sobre)viver e de apreciar a vida”, relata. 

Qual é, na sua opinião, o principal legado deixado por Antônio Cândido à educação?
Marisa Lajolo: Em vários momentos de sua vida de professor e em passagens de seus textos, ele discute a função da literatura na vida das pessoas e na vida social. Este é um dos grandes temas do professor. Para ele, a literatura – ao lado de outras manifestações culturais – satisfaz a necessidade do ser humano de sentir que é capaz de (sobre)viver e de apreciar a vida. Em dois de seus textos essa questão é detalhadamente discutida. São eles: “A literatura e a formação do homem” e “O direito à literatura”. 
 
Como ele trata o papel da literatura na vida das pessoas? 
Marisa Lajolo: Nestes dois textos, penso que o professor trabalha a ideia de que nascemos todos querendo viver bem.  Para isso, precisamos de apoio, solidariedade, proteção, ter contato com o belo e entender o mundo em que vivemos. Contudo, temos medo de não conseguir satisfazer estas necessidades. A literatura nos tranquiliza, mostrando as quase infinitas maneiras de lidar com estas necessidades e com estes medos. Lidamos com eles por meio da “imaginação de fantasia”, nas palavras dele. Assim, a literatura cumpre esta função humanizadora.      
 
Qual a importância de ensinar literatura neste momento dominado por tecnologias visuais e entretenimento?
Marisa Lajolo: Talvez “ensinar literatura” possa ser entendida de várias formas.  Uma delas, por exemplo, é ensinar que Érico Veríssimo é gaúcho e Gregório de Matos baiano; que Gonçalves Dias é romântico e Mário de Andrade modernista. Outra – bem mais interessante – é pensar que o contato com textos literários deve e pode desenvolver o gosto pela leitura. Neste caso, mais do que ensinar creio que se trata de contagiar. Acredito que uma pessoa que gosta de ler, que gosta de discutir o que leu, transmite este gosto aos outros.  
 
Antônio Cândido também aborda a importância da fantasia na vida do homem. Como isso se dá no contato com a literatura? 
Marisa Lajolo: Quando o professor Antônio Cândido aponta a importância da fantasia na vida humana, ele discute como, ao longo da história, diferentes produções culturais respondem a isso.  Contos, romances – em livros ou em telas – histórias em quadrinhos, telenovelas, ditados, poemas lidos ou declamados são diferentes formas que nós inventamos para exprimir nossa necessidade de responder, através da fantasia, a uma necessidade básica: compreender o sentido do mundo. É essa compreensão que o professor considera assunto da literatura. Nas palavras dele, “a literatura é uma das modalidades mais ricas de sistematizar a fantasia”.
 
Qual o papel das bibliotecas escolares no que se refere ao direito à literatura?  
Marisa Lajolo: Penso que passava pelas considerações do professor a certeza de que, há bem mais de um século, a literatura tornou-se objeto de mercado. Talvez não a literatura especificamente, mas sim os livros, dos quais o texto é uma das matérias primas. E porque talvez seja irreversível o mercado dos livros, as bibliotecas ganham espaço destacado em suas proposições. Na inauguração da biblioteca do MST, ele celebrou a importância da iniciativa dizendo: “as bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada. O amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões”. Acredito que a mesma ideia se aplique às bibliotecas escolares e salas de leitura, a partir das quais os professores iniciam seus alunos nas práticas e prazeres da leitura.
 
E qual o papel dos professores na defesa do direito à literatura?
Marisa Lajolo: a importância que o professor Antônio Cândido atribuía à escola e às atividades voltadas para a literatura materializa-se em 1985 na publicação do livro “Na sala de aula - Caderno de Análise Literária”. Esse subtítulo reforça a sua destinação e objetivo: sugerir aos professores e aos estudantes maneiras possíveis de trabalhar o texto. São seis análises de poemas brasileiros, de poetas do Brasil-colônia à segunda metade do século XX. Análises apresentadas em aulas onde, segundo o professor “tudo ganha mais clareza, devido aos recursos do gesto e da palavra falada, com o auxílio do fiel quadro-negro e seu giz de cor”. 
 
 
 
Para a professora Marisa Lajolo, obra de Antônio Cândido inspira professores a contagiarem alunos pelo prazer da leitura (crédito:arquivo pessoal).

 
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