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28/09/2017 | Fonte: Leonardo Valle

Educação maker ensina que aluno pode mudar sua realidade

Empatia e colaboração também são favorecidas em atividades mão na massa, afirmam especialistas

Um carrinho foi elaborado por dois alunos com lata de azeite e uma placa de isopor. A dupla, contudo, queria descobrir um jeito do automóvel funcionar sem combustível. Pesquisaram na Internet e descobriram a Placa Peltier, usada para resfriar bebedouros. O resultado é que ambos, sozinhos, conseguiram gerar energia suficiente para que o protótipo andasse. “Eles ficaram encantados com o que podiam fazer”, conta o idealizador do “Nave à Vela” – programa que alia engenharia, design e empreendedorismo no currículo escolar – Lucas Torres. 

Segundo Torres, este exemplo reúne três elementos importantes para a educação maker – ou mão na massa – acontecer: protótipo, projeto e descoberta de caminhos. “O diferencial é que o projeto tem um significado para os alunos. Nesse caso, o que os motivava era mais do que fazer o carrinho andar, mas pensar uma solução para um problema atual, que são os combustíveis fósseis”, relata o engenheiro, que foi um dos participantes da mesa “Educação Maker: como chegar às salas de aula?”, da Expo “Educação + Futuro + Tecnologia”. O evento ocorreu em São Paulo, no dia 27 de setembro de 2017.
 
Para o especialista, aplicar atividades práticas e alinhadas ao currículo escolar – princípio da cultura maker – tem impactos que vão além da sala de aula. “É como se mudasse uma chave na forma de pensar. Os alunos percebem que o mundo foi pensado por alguém, e que eles podem editar essa realidade. Deixam de serem passivos ou meros consumidores e passam a aplicar esse fazer ativo no dia a dia: do conserto da sua mochila até nas suas relações familiares”, pontua. 
 
Empatia e outras habilidades
Enquanto a engenharia fornece tecnologia e ferramentas na aula maker, o design é fundamental para criar empatia. “Por exemplo, o aluno pensa uma solução para ajudar o idoso a tomar sua medicação diária. Para desenvolver um protótipo, ele deve refletir: quem é esse idoso? Como ele se relaciona com a medicação? Como é a sua mobilidade? De repente, esse estudante passa a ter contato com uma realidade que era, até então, desconhecida para ele”, assinala.   
 
Além da empatia, a educação maker pode mobilizar outros aspectos emocionais importantes aos alunos, como resolução criativa de problemas, colaboração e autonomia. “Cada aspecto destes também estimula outras habilidades por tabela. A resolução criativa de problemas, por exemplo, envolve pensamento crítico, criatividade, aprendizagem de algo novo, lidar com o erro, entre outros”, reforça. 
 
Já o fundador do Mundo Maker, Fábio Zsigmond, reforçou o papel de mediador do professor nos processos de aprendizagem. “O projeto deve ser do aluno, mas os desafios propostos vêm do professor”, resume. “O professor deve ajudar o aluno no caminho da sua aprendizagem autônoma, nunca dando a resposta, mas apontando os caminhos para ele encontrá-la. Às vezes, até respondendo uma pergunta com uma nova provocação, que será estratégica para esse estudante resolver o problema”, pondera. 
 
Por fim, para Zsigmond, um espaço maker não depende de tecnologia para funcionar. “Não é necessário uma impressora 3D, como muitos acreditam. É possível criar com ferramentas manuais, digitais, software ou eletrônicos. O mais importante são as pessoas”, aponta.  
 
Cada escola, uma proposta
Simone Lederman é educadora do Instituto Catalizador, que desenvolveu atividades para que escolas municipais e estaduais ocupassem os FabLabs (laboratórios de criação) públicos de São Paulo. Para ela, a cultura maker também está intimamente relacionada ao conceito de cidades educadoras, ou seja, que a educação pode ocorrer em outros espaços que não a escola. 
 
“O bom de ocupar os FabLabs públicos é que os alunos passam a ter contato com outras pessoas com habilidades, experiências e paixões distintas. Além disso, o professor vê nessas outros participantes parceiros e colaboradores. Ou seja, ele não precisa saber tudo de tecnologia, pode pedir ajuda e criar em conjunto”, opina. 
 
Para ela, a implantação de projetos makers deve estar alinhada a realidade e necessidades de cada comunidade escolar para funcionar. “Não dá para copiar um projeto e transpor para outra escola. Mesmo que as duas sejam públicas e estejam situadas no mesmo bairro”, decreta.
 

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