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23/03/2017 | Colunista: Ricardo A. B. Lourenço

Para além do real

Cinema surrealista aguça percepções dos alunos

O diretor Christopher Nolan lançou, em 2010, o filme “A Origem”, cujo nome em inglês – Inception - indica realmente “algo que inicia, que origina”. No caso, são as ideias que ‘criam’ outras realidades. Uma cena que marcou a audiência foi aquela em que a personagem de Ellen Page imagina um horizonte diferente: ela cria uma cidade que se dobra, como se fosse construída sobre uma folha de papel. E pode se deslocar neste espaço.

Trata-se, obviamente, de um recurso que foge à realidade. Nasce das possibilidades imaginativas de uma urbanista criativa, que são externalizadas e ganham materialidade. O próprio filme trata da passagem ao mundo onírico, uma viagem ao fundo da mente humana, a partir dos sonhos. O personagem principal, vivido por Leonardo DiCaprio, vive entre a realidade e estes espaços oníricos e busca saber onde e quando sonha e onde e quando vive a realidade. Tudo muito original, novo, revolucionário. Será?
 
O tema da imersão no mundo dos sonhos não é nada novo. Ele já era discutido no cinema, desde 1929, quando Salvador Dalí, em cooperação com Luis Buñuel, lançou o curta-metragem “Um cão andaluz”. O filme é exatamente a forma com que Dalí e Buñuel buscavam a representação cinematográfica do surrealismo, a vanguarda artística da qual participaram no início do século 20. O movimento valorizava o papel do inconsciente na atividade criativa. Juntou escritores e artistas como Guillaume Apollinaire, André Breton, Salvador Dalí, Max Ernst e foi cristalizado com o manifesto de 1924. Nele estava presente a negativa da ordem lógica na trama, a negação da arte-retrato da vida e a influência dos escritos de Sigmund Freud. O onírico se sobrepunha à realidade e era fonte de criação e de conhecimento, na literatura e nas artes. 
 
E o filme de Dalí e Buñuel desafia o expectador. Ver “Um cão andaluz” é uma experiência, não um entretenimento nem uma fruição. É necessário um olhar interessado e a busca de sentidos (filosóficos, artísticos, psicológicos) para além do que ocorre nas cenas. É desejável que possa ser visto e discutido. Tematizada a Arte, seu papel, seus limites traz ganhos para os aluno. A sequência das cenas não auxilia a audiência na compreensão de uma trama – aliás, nem se pode dizer que há uma trama específica. É o experimentalismo que marcou o filme e o movimento e não a busca de uma audiência, o retorno financeiro ou um “curti” nas redes sociais o que move o filme. E os alunos, se sensibilizados para olhar e apreender este modo de narrar, descobrem outras formas de expressão e de compreensão. 
 
Obviamente que há saídas menos radicais, cujas influências do surrealismo permanecem visíveis. Somente para citar outro filme com Leonardo DiCaprio, “Ilha do Medo” (de Martin Scorsese, 2010) traz a mesma discussão, vez que trata do problema da loucura e do quanto realidade e delírio podem estar entrelaçados. Já no divertido e icônico “Labirinto” (1986), com uma primorosa participação de David Bowie, o ambiente lúdico da personagem principal é sempre distorcido num eterno jogo de espelhos e peças móveis. Neste filme, quase infantil, há diversas passagens que fazem alusão direta à obra do artista Escher, com suas imagens que desafiam a lógica e a imaginação.
 
Talvez a obra que fique no meio do caminho entre a vanguarda e o cinema feito para a audiência seja, na atualidade, o francês “A Espuma dos dias” (2013), baseado no romance de mesmo nome e dirigido por Michel Gondry. Trata-se de um filme que possui uma linha narrativa (início, meio e fim sequencial), mas o universo de tal linha é constantemente distorcido em um provocador ambiente de delírio surreal. Tal incursão nesta jornada visual pode causar cansaço aos ânimos juvenis, mas o encantamento pela capacidade de Gondry de simbolizar é permanente.
 
Ao trabalhar o surrealismo com os jovens é importante traçar tais linhas, sob pena de redução de uma arte potencialmente complexa, como o cinema, em um item unicamente consumível. Não tenho nada contra o consumo e o entretenimento, mas somente o experimentalismo das vanguardas – que não agrada e por vezes incomoda – é que legou ao mundo da cultura possibilidades novas para o uso da velha frase “luz, câmera, ação!”
Ricardo A. B. Lourenço

Ricardo A. B. Lourenço

Ricardo Lourenço é bacharel em Direito, licenciado em Filosofia e mestre em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Atua como professor de Educação para as Mídias e Filosofia para o ensino médio, e trabalha com a difusão de cineclubes em escolas.

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