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22/10/2013 | Colunista: Richard Romancini

EAD e formação de professores

Uma análise dos dados do decênio 2003-2012

Comentei no texto anterior que é provável que os cursos massivos online (os MOOCs) tenham baixa aderência à realidade brasileira. No entanto, uma dimensão da educação online que pode se tornar expressiva no ensino superior local é a que se associa à educação a distância (EAD). Por sorte, o MEC divulgou há pouco (como uma reportagem que o NET Educação divulgou) os primeiros resultados do Censo da Educação Superior 2012.

 
A partir dos dados divulgados, é possível constatar que além do crescimento contínuo da EAD de maneira geral, esta modalidade tem adquirido relevância na formação de professores. A discussão é favorecida por análise temporal mais alargada, que permita visualizar possíveis tendências. Por isso, as tabelas e gráficos mostrados a seguir cobrem o decênio 2003-2012.
 
 
Até 2009, os cursos de dupla saída (bacharelado e licenciatura) estavam agrupados numa única categoria, o que prejudica um pouco as comparações. No entanto, é possível perceber que em termos das tendências gerais, o que se percebe é o crescimento contínuo nos números de acesso e conclusão ao ensino superior no Brasil (como mostram as tabelas 1, 2 e 3, elaboradas a partir dos dados do Censo da Educação).
 
O crescimento entre os que finalizam os cursos foi de 97,4%, no decênio, alcançando 1.050,4 mil formados em 2012. E as matrículas deste ano (7.037,7 mil) são superiores às de 2003 em 78,8%. Chama a atenção o crescimento, bem acima da média, dos cursos tecnológicos, tanto em matrículas quanto no número de concluintes, que cresceu mais de dez vezes. Os dados do bacharelado estão mais dentro da média de crescimento do período. 
 
As licenciaturas, porém, cresceram menos, sendo notável o refluxo no número de concluintes que se observa entre o ano de 2009 (com 241,5 mil concluintes) e o de 2012 (223,9 mil). Na hipótese (improvável) de que todos os estudantes na categoria dos cursos de “Bacharelado e Licenciatura” obtiveram o diploma do último grau, o crescimento nos números de licenciados matriculados e concluintes, no decênio, seria de pouco mais de 10% nos dois casos, bem abaixo da média geral. Porém, quando apenas os números dos cursos de licenciatura são considerados, o crescimento é maior (pouco mais de 50%), tanto em matrículas, quanto em concluintes. Estes números também são menores dos que os índices médios de crescimento de todos os graus acadêmicos. 
 
Os cursos de licenciatura estariam perdendo impulso, com os dados apontando para uma tendência que repercutirá no futuro? Não me arriscaria a dar uma resposta, com base apenas nesse indicador. No entanto, essa pergunta tem importância e merece tentativas mais aprofundadas de esclarecimento. Por ora, seria possível notar que um aspecto que impulsionava as licenciaturas pode ter perdido força.
 
O artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, que tornou necessária a formação em nível superior para os professores que atuam nos níveis mais elevados da educação básica, sem dúvida, foi importante para o crescimento da oferta das licenciaturas. Porém, talvez, os principais efeitos da lei no crescimento dos cursos, relacionados à busca de formação superior por parte dos que já atuavam em salas de aula e que se somavam aos interessados em ingressar na carreira docente, tenham se esgotado. 
 
Licenciaturas e EAD
 
 
Como mostra o gráfico 1 (acima), do total de 1.050,4 mil concluintes de cursos de graduação em 2012, 16,6% concluíram na modalidade de educação a distância. Quanto aos graus acadêmicos relacionados com a EAD, as licenciaturas lideram com 75,7 mil concluintes, o que representa 43,4% do total em EAD. Os concluintes de cursos tecnológicos vêm em segundo, com 53,2 mil (30,5% dos formados em EAD) e, por fim, os concluintes de bacharelados, com 45,4 mil (26,1%). 
 
 
O número de concluintes de licenciaturas em EAD começou a aumentar mais a partir de 2008, que – como evidencia o gráfico 2 – é o ano em que as instituições privadas superam mais significativamente as públicas em termos da formação de professores a distância.
 
Percebe-se que o início da relação entre EAD e licenciaturas deu-se a partir de iniciativas públicas, tanto federais, como a da Universidade Aberta do Brasil (UAB), quanto estaduais e municipais. Porém, os números de concluintes nas instituições públicas tiveram aumento com progressão bem menor (e sujeito a oscilações) do que nas instituições privadas. Na verdade, pode-se observar que também a formação presencial de professores tornou-se, ao longo do decênio, marcadamente privada, apesar de que os números de concluintes do tipo presencial pararam de crescer a partir de 2010. De qualquer maneira, o setor privado é o principal responsável pelos formandos em licenciaturas na modalidade EAD, desde 2007. Em 2012, os formados em licenciaturas em EAD representaram cerca de um terço do total de concluintes deste grau, destes 62,5 mil realizaram o curso em instituições privadas.
 
O crescimento da EAD e seu forte papel na formação de professores já havia chamado a atenção da imprensa e de acadêmicos. Giolo (A educação a distância e a formação de professores), por exemplo, coloca em cheque esse tipo de configuração do sistema, em parte por criticar a concorrência dos cursos em EAD, com “projetos aligeirados e mercantilistas”, com iniciativas presenciais e qualificadas de formação de professores. O autor também defende de maneira firme a capacidade da educação presencial engendrar relações intersubjetivas mais ricas do que a educação a distância. Por isso, chega a dizer que a “formação de pedagogos a distância deveria, talvez, se restringir à formação de pessoas interessadas em se preparar para ensinar a distância”. 
 
Esse último comentário parece exagerado, porém, os argumentos sobre a qualidade devem ser tema de reflexão e, mais do que isso, busca sistemática de conhecimento sobre o que acontece de fato nos cursos existentes na modalidade a distância (e presencial). A avaliação dos cursos (e modalidades de ensino) é sem dúvida complexa, porém necessária. Os governos e instituições de pesquisa como o Inep podem desenvolver, eventualmente em colaboração, novos indicadores sobre o assunto. Por exemplo, uma avaliação indireta das formações dos professores é dada pelas aprovações em concursos públicos para docentes. Sabendo-se o tipo de curso realizado pelos candidatos poder-se-ia ter um indicador quanto às taxas de sucesso dos que cursaram licenciaturas presenciais e a distância. Seriam, de fato, muito diferentes como os críticos da EAD tendem a imaginar?
 
É claro, mais importante ainda é que a comunidade de especialistas chegue a consensos amplos e rigorosos sobre o que podemos considerar uma formação adequada para os professores no Brasil (para além dos critérios de aberturas e funcionamentos dos cursos). Assim, poderemos avaliar também os cursos à luz desses parâmetros. Caso as licenciaturas em EAD mostrem-se frágeis, deverão ser repensadas, aperfeiçoadas ou restringidas.
 
Num pioneiro estudo, do tipo sugerido quanto a sondar as práticas existentes na educação superior a distância, Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida e colaboradoras (Educação a Distância: oferta, características e tendências dos cursos de Licenciatura em Pedagogia) notam que a modalidade EAD enfrenta o desconhecimento, o que faz com que sua implantação no ensino superior seja “alvo de desconfianças, tensões e de opiniões polarizadas”. Por isso mesmo, como se defende aqui, o conhecimento empírico e sistemático é relevante.
 
Entre os achados importantes, além do fato dos alunos parecerem incorporar conhecimentos pedagógicos renovados, a partir de novos paradigmas, está o fato de que a associação entre as novas tecnologias e a EAD praticada nas instituições é relativamente baixa. Os usos interativos da internet, dando contornos à ideia de uma educação online, não parecem ser tão usuais e significativos quanto se poderia esperar. Assim, as autoras observam que alguns grupos de alunos “revelam desconhecer as possibilidades de comunicação da web e também não identificam se as interações podem ocorrer em qualquer horário com o uso das ferramentas da internet para dialogar com o tutor a distância”. Particularmente nas instituições privadas, as interações mais centrais ocorrem entre alunos e tutor em encontros nos polos presenciais, nos horários de plantão.
 
Sendo assim, os cursos de pedagogia na modalidade de EAD associam-se à “educação online” de maneira apenas parcial e isso tem implicação negativa em termos da própria identidade dos cursos. A EAD nas licenciaturas, ao menos nas de pedagogia pesquisadas, parece pouco pensada na sua especificidade positiva, quer dizer, nas possibilidades de preparar professores para desenvolver estratégias didático-pedagógicas que envolvam o que é hoje o mundo de boa parte dos alunos (presenciais ou não): as redes, as conexões ampliadas, favorecendo uma cultura participativa de aprendizagem, que aponta para novas práticas e desafios na educação.
 
Como observa Seraphin Alava (As práticas em comunáutica no centro da aprendizagem online), formadores e futuros professores podem ter dúvidas sobre a aprendizagem coletiva na rede, porém:
como imaginar que a nova geração, habituada à comunicação e às interações permanentes, através principalmente da Web 2.0, poderia se mostrar reticente diante dessas práticas? Contudo, podemos igualmente nos interrogar sobre como o ensino poderia, no futuro, ignorar esses novos modos de comunicação e de trocas de saberes.
 
Opiniões de especialistas
Ao fim, é interessante ampliar o olhar para os dados sobre a EAD/formação de professores no Brasil, no decênio 2003-2012, a partir das opiniões de especialistas no assunto:
 
Há uma forte demanda no Brasil e no mundo por mais professores. Dados recentes da Unesco demonstram a necessidade de mais 8,4 milhões de docentes até 2030, fenômeno explicado pelo aumento da população e pela inclusão de mais estudantes nos sistemas educacionais em todos os níveis.
No Brasil, são três as principais carências quanto à formação docente:
1. Há uma carência generalizada de professores em áreas do conhecimento tais como Física, Matemática e Química; 
2. Muitos profissionais docentes que já atuam nas mais diferentes áreas ainda não se diplomaram em um curso de graduação;
3. É fundamental ofertar programas permanentes de atualização, capacitação e formação para manter os professores em condições de desenvolverem plenamente seu potencial.
A EAD é um dos principais caminhos para atender essas demandas urgentes, conforme a própria Unesco declarou em sua Conferência Mundial da Educação Superior, realizada em 2009. A flexibilidade de tempo, flexibilidade de espaço e a personalização das relações de ensino-aprendizagem que a EAD proporciona permitem inovações metodológicas que se coadunam com as próprias expectativas da sociedade quanto ao perfil dos cidadãos formados nas escolas e universidades. 
Luciano Sathler (Mackenzie)
 
Embora apontem uma tendência de crescimento, os cursos a distância, no Brasil, ainda flutuam entre as perspectivas de política pública e de “filão de mercado”. Originalmente concebidos para poupar recursos por economia de escala (como na era pré-computador), os cursos online atuais logo tiveram que assumir seus pré-requisitos de inclusão digital prévia (ou concomitante) de modo a condicionar o sucesso dos participantes ao seu grau de proficiência na interação com as plataformas EAD. Isto os afasta bastante do perfil de uma política pública que visa o acesso dos desfavorecidos à educação de qualidade.
Concluindo: de certa forma, se assumimos que havia, originalmente, um plano nacional de integração de plataformas EAD geridas pelo MEC, fica claro que este desenho, em algum momento, tornou-se inviável e foi abandonado (não necessariamente nesta ordem). O que não está claro, no momento:
- Que outro modelo se apresenta agora?
- A quem ele atende?
- Quem o define?
Marciel Consani (USP)
 
Entre os anos de 2010 e 2013, o Núcleo de Comunicação e Educação (USP) em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco implementaram o programa Mídias na Educação, promovido pelo MEC, com o intuito de atender à demanda por formação voltada ao uso da comunicação. Ouvindo as avaliações dos professores, observa-se a relevância desse tipo de ação. Junto com as centenas de monografias (mais de 400), nas quais os professores compartilham conhecimentos e experiências, percebe-se um importante crescimento profissional com desdobramentos práticos. Há pouco, soubemos do caso de uma professora que promoveu em sua região um concurso fotográfico, com a participação dos estudantes, que teve relação direta com seu estudo no curso. Outros exemplos poderiam ser dados, no entanto, é claro que desafios ainda se colocam para as políticas públicas em EAD na formação em serviço, assim como para a garantia de acesso às tecnologias de informação e comunicação, por parte de nossos professores e alunos. Devemos avançar nesses aspectos.
Patrícia Horta (UFPE)
 
Em minha tese de doutorado “Caminhos para práticas pedagógicas inovadoras de ensino e aprendizagem” foi indicado que de 2008 a 2012 as práticas de docentes em sala de aula com o uso da tecnologia aumentaram e foram inspiradas pelo modelo dos cursos EAD.  Os professores procuram participar de redes sociais, videoconferências e outros espaços para desenvolvimento profissional e para práticas inovadoras em sala de aula. Muitos estudiosos da educação já debatem a necessidade de aumentar os 20% de disciplinas a distância nos cursos de graduação presenciais. Para a formação em serviço dos professores, a EAD tem um papel fundamental, pois é só através dela que o professor pode vivenciar e aprender o tipo de ensino que tem buscado cada vez mais trazer para a sala de aula.
Renata Aquino Ribeiro (PUC-SP) 
Richard Romancini

Richard Romancini

Richard é doutor em Comunicação, pesquisador e professor do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação da ECA-USP.

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